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A difícil caminhada dos que querem deixar o comportamento gay

06/05/2019 13:45

 Por Raquel Soares*

 

Para ser um g-zero-y basta ter introspectado em si a valorização da sua própria masculinidade e depois aliar a isso também um comportamento de ZERO anal masculino.

Pela frase parece até ser simples. Nota-se que homens cuja predominância afetiva seja heterossexual ou às vezes mesmo homens cujo padrão sexual era de bi (somente-ativo), costumam relatar nas redes sociais que a transição para o mundo g-zero-y ou heteroflex, foi muito bacana, foi uma mudança tranquila e como ponto positivo serviu para dá um salto de liberdade em sua vida. 

Contudo e se for o oposto? Se partir do mundo heteropurista para o mundo hetero flexível os relatos e depoimentos em redes sociais apontam ser até rápida e com pouco stress psíquico, como ocorre a mudança de comportamento gay para o padrão gØy? 

A transição do padrão homossexual para uma atitude predominantemente gØy também seria tão rápida assim? A resposta parece ser NÃO, pois exige da pessoa o triplo de garra e força de vontade.

Na filosofia g0y isso se deve a ideia de que do gay para o g0y haveria um movimento  bottom-up  que seria muito mais árduo e díficil de caminhar e ainda haveria a turbulência nas possibilidades bi com a zuik (um postulado teórico), algo como 'um ciclone' ou como um turbilhão a atrair e afastar, podendo empurrar a pessoa para mundo heterogoy quanto para o retorno ao homo total.

Saindo da filosofia para a prática, especialmente no Facebook e no WhatsApp há diversas comunidades auto-geridas de ex-gays que dão apoio a outros que querem se empenhar nessa direção de deixar o sexo anal de lado e buscar também um padrão mais pró-masculinidade.

Tivemos acesso a dois desses grupos no WhatsApp, um no Brasil (Rio de Janeiro) e outro no Chile (Santiago). Mas, como grupos de WhatsApp normalmente são mais restritos e de díficil acesso, para curiosidade do leitor indicamos alguns grupos que são mais acessíveis como: Ex-gay male 100% gØy (https://groups.yahoo.com/neo/groups/ExGayMale-100percentG0Y/info) EUA e o grupo Ex-gay Existe! (https://www.facebook.com/groups/126703141368372/) de Cuiabá- MT que é de iniciativa de agremiações religiosas evangélicas.

Um desses grupos do Canadá presente nas redes sociais fez uma enquete, na qual obteve o seguinte resultado:

 

 

Nessa enquete algumas coisas chamam muito a atenção: 

 

A primeira é que todos assumem que a sexualidade é mais fléxivel [frisando que o grupo em foco é do Canadá], no exterior eles usam o termo ex-gay sem problema algum.  Como parece e pelo exposto em uma das questões da enquete, também não houve problemas em assumir que a pessoa tentou abandonar o comportamento gay e não conseguiu, nota-se que 31% voltou a seu estar gay.

 

Segundo, foi justamente o que me motivou a procurar conhecer alguns casos reais - o percurso não é tão simples, nota-se que há um pouco mais de 30% de casos de insucesso, não no sentido de isso ser bom ou ruim, mas no sentido de mostrar que a pessoa não atingiu o que ela desejava. Por outro lado, nesse grupo dos Estados Unidos 69% (o que pode ser considerado por alguns um bom número), de fato conseguiram realizar essa tansição que desejavam. 

 

A outra coisa que se destaca é que nessa enquete não há 'ex-heterossexuais' e nesse contexto exclusivo homoafetivo - 89% ou seja, praticamente 90% dos respondentes que se aventuram nesse percusso de abandonar o comportamento gay, relataram que quando eram gays eram exclusivamente ativos. O que mostra que o mundo do comportamento do estar 'gay zero' ou gy homoerótico, atrai mais os ativos do que os passivos. 

 

E aqui no Brasil?

Localizamos Roberto, 32 anos, mora em São Paulo Capital e diz que apesar de ser passivo, gosta da cultura g0y, por que ele se sente masculino e não curte afeminados. Afirma: Frequententei encontros g0ys de masturbação entre os garotos, no começo foi legal, mas depois passou a ser motivo de muito sofrimento, afinal eu não queria só brincar ou se divertir como os outros meninos. Queria algo mais para me preenceher e satisfazer, e como não havia penetração aquilo me frustava. Desisti de ir, mesmo considerando alguns bem legais.

 

Fernando, 43 anos, mora no Rio de Janeiro e não se considera exatamente um 'ex-gay', fez questão de frisar: Me considero um ex-bissexual. Na maiorira das vezes transava como garotos, mas também às vezes transava com garotas. Sou meio a meio, mas transar com homens é muito mais fácil, já com mulheres elas são mais seletas e arredias, acabei não casando com mulheres e até cheguei a namorar com um cara anos atrás. Mas o fato é que só homens não se satisfaz, gosto dos dois, o anal com homens não substitui o sexo prazeroso com mulheres. Na primeira vez que li sobre o heterogoy, me toquei que aquele perfil era o meu. Não foi fácil deixar de ser bi-ativo para ser só hetero g0y, tive várias recaídas e acabei penetrando alguns camaradas, só que hoje aprendi, sou menos afoito, sempre antes de um encontro converso bastante antes, para saber qual é e faz dois anos e meio, que estou 100% g0y e me sinto muito melhor assim.

 

E você acredita em ex-gay? A penetração é tão primordial assim? Talvez seja melhor encarar que as pessoas são donas dos seus corpos e tem o direito de querer experimentar um novo comportamento.

 

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* Jornalista pela UFOP - Universidade Federal de Ouro Preto, freelance e investigadora do tema g-zero-y e sexualidades alternativas .

 

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