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G0y e orientação sexual

 

A terminologia 'orientação sexual' ganhou grande força a partir do final do século passado e trata-se de uma concepção acerca da sexualidade baseada na contraposição a uma frase antes muito utilizada que era a 'OPÇÃO sexual'. Até certo ponto estaria tudo bem, pois a ideia de opção sexual traz equívocos e uma delas certamente é a palavra opção às vezes traz a noção como se em um toque de mágica fosse possível em um dia ser hétero, amanhã ser gay e no outro dia, optar e retomar a vida de hétero, etc. A opção com este sentido, certamente não se concretiza e nunca se concretizou dessa forma e isto reforçou a noção de que existiria uma orientação maior, ou seja algo externo à opção consciente do sujeito e/ou que seria a tendência ou a atração predominante de cada pessoa seja ela pela homo ou pela hetero sexualidade.

 

No entanto no mundo g0y reafirma-se inúmeras vezes que ser g0y não tem uma relação direta com a orientação sexual. E muitas pessoas acostumados com essa terminologia, se perguntam (?!?) Como isso é possível? Como pode ser efetivo no caso dos g0ys um único termo agregar heterossexuais e homoafetivos; sem haver ambivalência e sem haver conflito? Por trás dessa dúvida está a noção dogmática que foi construída e reforçada há no mínimo dois mil anos, que é justamente a crença da existência de duas orientações sexuais opostas e em uma dicotomia que se repele, que não se atrai e sem a possibilidade da existência de um meio termo, menos radical.

 

Atualmente não existe consenso sobre o que é orientação sexual. Em uma rápida pesquisa no google é possível acessar centenas de definições diferentes, com diversas nuances e particularidades, mas em todas elas há diversos pontos em comum: Orientação contrapõe-se à noção de opção sexual, orientação seria uma tendência na qual o sujeito não possui controle, orientação é um aspecto interno na qual você é orientado para aquilo, enfim é como se a pessoa estivesse predisposta, pré-formatada ou feita para determinada conduta sexual.

 

Para os pressupostos g-zero-y, na verdade essa questão é ainda mais profunda, pois a pergunta que se faz é: Existe realmente o que hoje chamamos de orientação sexual?

 

A orientação mesmo possuindo uma diversidade enorme de concepções, observa-se que em praticamente todas elas; a orientação sexual é considerada como se fosse algo inato, algo fora do controle e/ou para muitas pessoas até mesmo algo próximo do imutável, entretanto para um g0y esse dogma simplesmente não existe. A concepção g-zero-y não leva em consideração a orientação sexual como máxima, pois para nós, um ser humano totalmente fora do seu posto de comando e sem livre arbítrio não apresenta concretude e solidez. Não se pode negar e nenhum g0y jamais faria isso, pois é ÓBVIO que as pessoas possuem preferências e se atraem de forma inconsciente e muitas vezes fora do controle e da sua vontade consciente para determinado objeto ou circunstância sexual, mas isso de acordo com os pressupostos g0ys não passa de uma mera condição sexual e de uma construção identitária que é desenvolvida ao longo dos anos e que começa desde a infância e perpassa por toda a vida adulta.

 

Explicando melhor. A única coisa mais próxima de uma orientação ou tendência sexual e que carregamos na nossa espécie humana seria aquilo que trazemos nos nossos instintos, no nosso lado animal, ou seja, naquilo que herdamos ao nascermos por meio da nossa carga genética/biológica. Entretanto, essa carga não seria tudo e na verdade é até pouco pois todo o restante da noção de sexualidade que carregamos na nossa estrutura mental, é desenvolvida; portanto não é instintiva. O instinto é apenas a source, a sexualidade cotidiana é sobretudo comportamental e cultural.

 

Traduzindo em miúdos, claro que, os pressupostos g0ys ainda estão em busca da maior cientificidade e também solidez epistemológica e ontológica, entretanto para os g0ys, o conceito sexual gira principalmente em torno do comportamento e da atitude e não dos desejos ou impulsos sejam eles instintivos ou não. Claro que os desejos, tendências, preferências, etc. existem, mas esses aspectos não são centrais para marcar a identidade de um g0y, esses aspectos sim são importantes e tão somente relevantes pois eles via de regra antecedem ao comportamento humano, mas é bom frisar que também os aspectos internos podem vir ser trabalhados, conscientemente ou não ao longo da vida.

 

Nesse ponto, convém lembrar que a própria ideia de civilização é justamente a de um homem que convive em sociedade e que não seja um mero escravo de seus desejos, os desejos internos interagem com o ambiente externo na construção subjetiva do que na psicanálise denomina-se superego e nesse processo contínuo que é o dos desejos e impulsos virem ser transformados posteriormente em comportamento; eles não são imutáveis. Por falar em psicanálise o seu pai — Freud, afirmava justamente que a bissexualidade enquanto afeto seria uma tendência predominante enquanto expressão do libido; implicando em dizer que a homossexualidade adulta seria uma repressão da heterossexualidade que deveria existir, e o que conhecemos por heteronormatividade seria a repressão do lado homoafetivo que foi suprimida e que existiria em grau maior se não houvesse tanta interferência dos valores sociais e da cultura.

 

Somente teríamos como saber indubitavelmente qual seria essa dita "verdadeira" sexualidade humana, ou seja a sexualidade "pura" e hipoteticamente fora da interferência da aprendizagem das crianças utilizando adultos como modelos, se numa pesquisa isolássemos bebês criando-os em local deserto e sem nenhum contato com adultos ou civilização, e esperar dezessete, dezoito, dezenove anos para ver o que aconteceria... obviamente uma experiência dessas somente poderia ser objeto de um filme de ficção, não haveria a menor viabilidade ética, moral e nem mesmo sequer operacional e obviamente os bebês não sobreviveriam sob nenhuma hipótese. Então, na base do quem não "tem cão caça com gato", uma alternativa razoável é recorremos aos comportamentos dos animais como uma forma de tentar inferir-se, o que seria um comportamento sexual vindo da natureza e/ou no caso dos humanos qual seria a orientação sexual instintiva sem interferências de valores e costumes.

 

No entanto, somos humanos e o fato é que a cultura existe e sempre existirá, portanto estas e outras questões ainda irão intrigar os seres humanos durante décadas e séculos. O que nós temos até o momento é que a etologia (ciência parte da biologia que estuda o comportamento dos animais) até o momento não encontrou nenhuma espécie animal que pratique o sexo gay, mas diversos comportamentos próximos da homoafetividade entre os machos são vistos como a exemplo dos leões e dos ursos, dente outros. Isso reforça o comportamento g0y como sendo natural ou instintivo. Outro argumento que também reforça esse pressuposto é que em sociedades primitivas o ser g0y — até que provem o contrário, era o padrão. Aparentemente o comportamento g0y não era uma exclusividade da Grécia antiga, pois até o momento não foram encontradas evidências da prática do sexo anal entre homens que viveram em culturas historicamente anteriores ao advento do grande império romano.

 

Mas, falando da nossa época contemporânea as pesquisas modernas apontam para a recorrência sistemática de que entre os homossexuais masculinos há uma frequência enorme de casos que se repetem e geralmente em um dos três eixos onde o homossexual está associado a (1) presença de uma mãe super-protetora, castradora, controladora ou de uma personalidade dominante (2) a figura de um pai ausente, um pai alheio ou que pensa que por exemplo a educação dos filhos deve caber exclusivamente às mulheres, filhos que tiveram mães e não pais como modelo de vida, pai que troca poucos carinhos, que não brinca com os seus filhos homens, pais que chegam às vezes à extrema arbitrariedade em relação aos filhos rapazes ao ponto de não trocar afetos nem conversar (talvez, isso seria coisa de fresco!?) e (3) especialmente na nova geração pós anos 90 há uma recorrência de crianças que se tornaram adultos sem uma sólida formação religiosa, responsável em grande parte pela solidez moral, valores e princípios relacionados à vida como um todo, e também a sexualidade.

 

No entanto, apesar disso tudo ser verdade, nota-se um preconceito na própria ciência que é produzida por cientistas e que também possuem seus valores. Porque tanto interesse em descobrir os motivos da homossexualidade? Porque não há pesquisas científicas em grande escala buscando entender também como se forma a heterossexualidade? Como aqui nós não temos compromisso e nem obrigação de um conteúdo que soe como politicamente correto, logicamente por trás desse interesse, está a noção de que o homossexualismo seria um comportamento transviado e que o heterossexualismo seria o padrão esperado, seria o normal, o padrão natural ou desejado e assim não haveria lá muita motivação para estudá-lo.

 



 

Como dito antes, nós g0ys acreditamos que a sexualidade é construída, e se é construída, logicamente é construída para os dois lados, tanto o hétero e quanto o homo, e por isso acreditamos que homossexuais não nasçam homossexuais, ao contrário do que outras ideologias apreogam. E do lado oposto por sua vez, já que a ciência não busca respostas para a heterossexualidade, resta a nós buscarmos o que existe no bom senso e observação comum. Todo pai mesmo que instintivamente sabe que seu filho não possui garantias plenas de vir a ser um garanhão ou um macho dito exemplar, tanto que investe pesado principalmente lá na infância e na adolescência. Se o homossexual está associado a figura do pai ausente, o heterossexual embora a ciência não discorra ainda, pela leitura cotidiana sabemos que está associada a um pai presente e atuando sempre no sentido de que a homo afetividade porventura latente seja sempre suprimida, continuamente. Ao longo da vida o filho deve ter ouvido com certeza  várias vezes que homem que é homem gosta só de mulher, meu filho não 'troque figurinhas' com ninguém na escola, se alguém pegar na sua bunda meta a porrada, conte para a professora, empurre, faça qualquer coisa mas não deixe! Dependendo do pai, observa-se tão claramente esse investimento que chega perto não de uma educação, mas quase de uma tortura ou lavagem cerebral.

 

OK. Tudo isso é bonito e faz muito sentido. Mas enquanto g0ys não estamos aqui para reforçar preconceitos e nem mesmo autoritarismos por parte da figura paterna. O fato é que nada disso explica tudo, pois há filhos de mães solteiras (obviamente, com os pais totalmente ausentes), filhos de mães autoritárias e "manda-chuvas" e filhos de agnósticos que NÃO SÃO homossexuais. Do outro lado há pais totalmente presentes e mesmo que a contragosto e do pesado investimento na educação heteronormativa, se deparam com um filho homossexual, quando o mesmo se torna um adulto. Então, com certeza, há algo que vai além disso.

 

A sexualidade masculina é complexa e portanto nada disso explica por completo o comportamento sexual adulto, mas se essas circunstâncias explicam apenas algumas peças do quebra-cabeças; nós temos que tomar cuidado para não podermos recorrer ao erro tentador de novamente nós acharmos que a orientação sexual é algo fora do controle, pré-formatada para o indivíduo, genética e/ou imutável.

 

Estudos com gêmeos homozigotos (gêmeos idênticos, clones naturais e portanto com cargas genéticas 100% iguais) mostram que em aproximadamente 70% a 75% dos casos onde o gêmeo é homossexual tem-se o outro irmão gêmeo com comportamento heterossexual. Hummm, se todas as ideologias estivessem corretas... Vamos raciocinar... Geneticamente iguais, famílias iguais, educação religiosa semelhante e se houve porventura mãe superprotetora ou pai ausente esses foram igualmente para os dois. Então o que tinha que acontecer: Se um gêmeo é hétero o outro também deveria que ser hétero, se o gêmeo é homossexual o outro também deveria ser gay, mas essa convergência comportamental ocorre em apenas 25% a 30% dos casos, demonstrando assim que a sexualidade masculina  adulta é muito mais complexa do que se possa pensar inicialmente, e demonstrando também que o comportamento gay adulto, não é algo que vai em um sentido, como se alguns homens por alguma espécie de carga/orientação nascessem homossexuais, isto não é plausível do ponto de vista científico.

 

Até onde a memória de qualquer ser humano alcance e os livros de história relatem, sempre existiram maiorias de mulheres e homens heterossexuais e uma minoria de homossexuais. Mas o mundo g0y vem mostrar que a sexualidade humana é mais rica e a questão da homo afetividade "sacode" beneficamente alguns conceitos arraigados historicamente. O espectro de sexualidade humana é ampla e no caso dos g0ys a sexualidade masculina também mostra-se de alta complexidade, mas o seu escopo não é estático, vai dos heterossexuais empedernidos aos que não tem o mínimo interesse pelo sexo oposto. Entre os dois extremos, em gradações variadas entre a hetero e a homossexualidade, oscilam e ganham espaço os de comportamentos menos ortodoxos.

 

Em termos comportamentais o que para o mundo muitas vezes para o cotidiano atual é apenas dividido em dois, para a filosofia g0y poderia ser dividido a priori em nove e quem sabe até mais:

 

Legenda: 9 - Heterossexual tradicional; 8 - Hétero Flexível; 7,6, 5 Bissexual em suas intensidades; 4 - Homo afetivo não homossexual; 3 - Gay ativo; 2 - versatíl; 1 - gay passivo.

Para nós g0ys a orientação/opção/condição sexual — ou qualquer nome que se queira dar a uma identidade sexual, por se tratar de comportamento, esta condição sexual pode ser mutável. O imaginário coletivo já contém a ideia de 'gradações de macheza', mas ainda não incopora uma dinâmica. O mesmo sujeito pode mudar de classificação em função do seu comportamento apresentado, bem como, passear lentamente por várias instâncias ao longo da sua vida, mas NOTE QUE passear não é tão simples, há um movimento escalar top-down (flecha em azul), bem como bottom-up (flecha em vermelho), sendo que todo movimento demanda energia e investimento desprendido.

 

Nesse modelo da Manhood Scale, por exemplo, um hetero-g0y pode sim mais facilmente tornar-se um bissexual eventual (ou bisex não corriqueiro) e depois retornar a sua condição de ser hetero-g0y como antes e também depois de certo tempo comportar-se como um hétero 'clássico', ou seja, sem demonstrar externamente expressão homo emocional relevante. Essa migração não seria tão simples ou rápida, mas também não seria tão difícil porque são instâncias sexuais de condições mais próximas. Sendo que neste modelo em qualquer processo migratório entre as condições, o movimento top-down é sempre mais facilitado que o mesmo movimento de mudança no sentido inverso que demandará sempre maior esforço e investimento.

 

A região da bissexualidade mais central (região 6), representa a região de maior instabilidade, é como se metaforicamente houvesse uma força centrífuga que empurrasse continuamente a pessoa para uma das regiões e fazendo com que até mesmo na expressão da bissexualidade, o mais comum seja que haja a predominância de um dos lados no que tange aos comportamentos sexuais.

 

Se a bissexualidade sem predominância hetero ou homo representa uma região de instabilidade por excelência, as regiões extremas (o heteronormativo e o gay passivo) representam as regiões de maior resistência à mudança. Observa-se, por exemplo, que é muito difícil a figura do ex-gay passivo (mas convém lembrar que apesar de mais raros, eles também existem, vide por exemplo essa comunidade e outras tantas), o que ocorre é que esse status específico exige uma força e um investimento muito mais elevado para qualquer transposição, pois além de ser uma região estável de pólo extremo ainda exigiria o movimento bottom-up que demanda muito esforço psíquico. Por outro lado, o mundo empírico no entanto mostra que a transição do gay ativo para o mundo g0y não é tão rara e é até relativamente muito frequente e/ou recorrente. 

 

Enfim, os pressupostos da Manhood Scale (ou gradação de virilidade) são de certa forma advindos do imaginário coletivo e de uma forma geral, para o mundo g0y o que muda é que no senso comum há uma noção de "super estabilidade" e na Manhood Scale sobressai a noção de movimento, sendo qeu essa lógica do movimento pode ser usada para qualquer uma das regiões escalares e esta mudança comportamental ou transposição entre as diversas regiões sempre é mais facilitada no sentido top-down, mas sempre é passível de existir nos dois sentidos.

 

Para facilitar o entendimento, tentamos aqui na medida do possível, não produzir um texto tão longo para que ficasse enfadonho e acessível a todos os públicos, mas era preciso elucidar alguns preceitos dos pensamentos embutidos na filosofia comportamental g-zero-y, especialmente no que diz respeito à noção de orientação sexual como sendo algo inerente e imutável o qual não concordamos. A questão é por que o presente não nos faz crer que essa ordem seja natural e por que ainda é tão difícil aceitarmos a riqueza da biodiversidade sexual da nossa espécie? Por que insistirmos no preconceito contra um fato biológico e social inerente à condição humana?

 

Em contraposição ao comportamento adotado em sociedade, a sexualidade não é uma mera questão de opção individual, como muitos gostariam que fosse, mas também não é uma condição pré-formatada. A sexualidade masculina simplesmente se impõe como forma de rearranjo da nossa libido e energia, que é sobretudo energia vital, mudanças podem ocorrer de forma intencional ou não, não satisfeito com a sua condição que foi construída ao longo do tempo, em alguns momentos é possível sim caminhar de forma consciente, seja impulsionado pelos seus valores, suas crenças, em prol da redução de uma dissonância e por vontade do indíviduo, mas qualquer mudança não é fácil, exige esforço, energia desprendida e muitas vezes investimentos subjetivos muitos altos e até mesmo sofrimento. A questão é: vale a pena? Isso somente o próprio sujeito pode responder, mas o que como g0ys podemos afirmar é que na grande maioria, os atuais g0ys relatam histórias pessoais de migração geralmente das condições 09 e das condições 07 e 03, bem como também, há o relato comum de ser ouvido que é "eu sempre fui g0y e me comportava como g0y, apenas o termo me possibilitou a construção de um identidade".  

 

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