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Homosexuality and Homoaffectivity in ancient Egypt

EM BREVE TRADUZIREMOS TAMBÉM O TEXTO PARA O ESPANHOL.
 

Muito se fala sobre a vida dos gregos e a sua cultura, e uma das teses do pensamento g0y moderno é que o homossexualismo masculino, praticado em larga escala, surgiu na história da humanidade apenas durante o Império Romano, nos anos próximos ao nosso hipotético ano zero do calendário gregoriano da nossa era cristã, e de lá se espalhou.

Se o sexo anal entre homens teve seu auge lá pelos anos 100 a.c. e 200 d. c., isto talvez explique os motivos da hétero normatividade enquanto cultura sexual,  ter vencido e prevalecido ao longo desses últimos anos. Pois, partimos de uma homo-afetividade natural e em tese presente em todos os povos da era pré-Roma, para uma devassidão sexual em todos os sentidos que durou alguns séculos e deixou como marca após a queda de Roma, um contra movimento normativo e geral por parte dos héteros na busca de enfraquecer, desestimular e até mesmo condenar qualquer tipo de contato homo masculino.

No período do embate, seria como se a ala masculina conservadora de posse de argumentos fortes na época, tinham legitimidade social para buscarem assim moralizar os comportamentos, aplicando a seu modo um remédio ou antídoto. Só que em altas doses  esse suposto remédio, por sua vez teve como efeito colateral a própria construção da cultura hétero normativa, em uma superdosagem contínua e exagerada que triunfou. Com o passar dos anos a heteronormatividade foi tornando-se generalizada e até mesmo inconsciente como parte da nossa cultura ao longo dos últimos 2.000 anos, e como norma não apenas desestimulou o contato sexual, mas desestimulou todo e qualquer contato afetivo ou erótico.

 

Se esta tese estiver correta, para a mesma ser minimamente plausível, implica em dizer que a homoafetividade estaria presente não apenas na cultura grega — onde há inúmeros relatos quanto a isso; mas presentes em todos os povos e civilizações pré-Roma, como os gregos, egípcios, civilizações pré-colombianas (tais como: maias, astecas, incas, povos indígenas brasileiros  e do oeste norte-americano), babilônios, etc.

Então avançando mais um pouco nessa história, como seria e como ocorria contatos mais íntimos entre os homens no Antigo Egito? Embora a literatura não seja tão vasta quanto na cultura grega, vejamos o que dizem os poucos achados sobre essa questão comportamental até o momento. Lembrando que o Egito foi uma das grandes civilizações do passado, que teve inicio entre os anos de 4000 a 3500 a. c. (não há como precisar), mas somente é considerado enquanto uma "nação" a partir de 3.150 a.c.  com a aglutinação da sua organização social e a unificação política do Alto com o Baixo Egito sob um único comando, a do primeiro Faraó (Narmer).

 

O sucesso da antiga civilização egípcia deve-se em parte à sua capacidade de se adaptar às condições do Vale do Nilo. A inundação previsível e a irrigação controlada do vale fértil produziam colheitas, que retiram a necessidade do comportamento nômade do seu povo e  alimentou o desenvolvimento social e cultural. 

Dentre as inúmeras realizações dos antigos egípcios incluem o desenvolvimento de técnicas de produção e organização social, linguagem escrita, extração mineral, um sistema de matemática, um sistema prático e eficaz de medicina, sistemas de irrigação e técnicas de produção agrícola, bem como, provavelmente uma engenharia muito avançada que produziam os primeiros navios conhecidos e técnicas (ainda desconhecidas) de topografia e de construção que permitiram a edificação das famosas e monumentais pirâmides.

O Antigo Egito deixou um legado duradouro, mas a sua "influência cultural" sobre o mundo antigo, começou a sofrer um declínio logo após o término do seu reino quando o Egito tornou-se uma  Província Romana em 30 a.c., após a derrota de Marco Antônio e da rainha Ptolomaica Cleópatra VII. A partir de então o domínio de Roma prevaleceu.

 

Embora os romanos tivessem uma atitude mais hostil do que os gregos para com os egípcios, algumas tradições foram mantidas, como a mumificação e o culto dos deuses tradicionais. Somente no século II d.c, o cristianismo se enraizou, sendo visto e aceito como outro culto, e logo depois no século III, sendo a religião que viria a triunfar.  No século IV d.C. o Império Romano dividiu-se em duas partes e o Egito se incorporou ao Império Oriental, conhecido como Império Bizantino.                                                                                                            O Império do Oriente (Bizantino) tornou-se cada vez mais "oriental" em grande estilo, mas certamente as ligações com o mundo greco-romano, certamente já estavam estabelecidas, e no foco do nosso caso, a visão sofre contatos íntimos masculinos também já havia sido modificada, em relação à cultura egípcia original.                                                                                 As referências à homossexualidade entre homens e, especialmente entre as mulheres são muito escassas nos textos e na arte do Egito antigo. Existem algumas pinturas na arte egípcia que mostram o contato entre dois homens como algo natural e aceito (pois se não fosse aceito, não haveria pinturas como essas que eram exibidas ao lado das pinturas com a mulher e os filhos). Mas nos poucos elementos escritos existentes nota-se que a homossexualidade masculina, ainda que tolerada, não era um ato moralmente aprovado, e foi condenada legalmente em determinados períodos da história egípcia.                                                                   Diversas pinturas demonstrando a homo afetividade de forma não vergonhosa são encontradas, e não tão são raras, (veja algumas ilustrações ao lado), uma das mais explicítas é o Baixo Relevo pintado na tumba de Ankh-Mahorno que mostra um escravo em contato com a partes íntimas de um homem egípcio (O dono da tumba?) que acaricia a sua cabeça, na mesma pintura, também, há dois escravos em uma espécie de ritual íntimo com o egípcio; apesar do forte conteúdo homoerótico /afetivo, no entanto a que mais repercutiu foi a ilustração encontrada na tumba de Niankhkhnum e Khnumhotep. Nessa tumba que sobreviveu ao longo dos séculos soterrada pela areia (foto abaixo), foi descorberta em 1964 e nela encontra-se registrada a mais famosa pintura mostrando uma forte relação entre homo afetiva entre Niankhkhnum e Khnumhotep (veja na seção de notícias). 

A questão é saber se esse sentimento expresso de forma tão contundente pode ser considerado a expressão de uma relação homossexual ou outra forma de afeição que unia esses homens, conforme bem coloca Reeder em seu livro.

Ambos, Niankhkhnum e Khnumhotep, possuíram esposas e filhos que estão também representados na tumba e chamam a atenção do mundo pois nem por isso os gestos homo afetivos foram negligenciados, muito pelo contrário foram registrados como grande feitos entre os dois homens, sem dúvidas não se tratava de uma relação clandestina, se não em virtude dos valores da época ela seria censurada pela própria família que não faria questão de expô-la para posteridade, ainda mais em uma sepultura conjunta, que unia os dois com suas mulheres e filhos.

  Tumba de Niankhkhnum e Khnumhotep (Saqqara)

A homoafetividade no antigo Egito era considerada aceitável, mas violar outro homem era considerado um ato de agressão, pois era visto como um meio de obter poder sobre um adversário ou um homem mais frágil. A palavra hemiu tinha ao mesmo tempo o sentido de afeminado e inimigo. Um conto envolvendo os deuses narra o estupro de Hórus por Seth (apesar de outra versão do mesmo conto apresentar a relação dos dois deuses como consensual, ou seja, o ato foi acordado entre as partes, mesmo assim, o coito anal foi considerado como violento e desnecessário).  O homossexualismo também é mencionado no Papiro Carlsberg XIII, e a menção ocorre com tom de desaprovação.

 

No caso do Papiro Chester Beatty I, o exercício da homossexualidade não se dá pelo desejo sexual, mas pelo exercício do poder e de subjugação do seu adversário e/ou parceiro; já no Papiro Kahun, essa 'subjugação' são os atrativos de Hórus que devem ser descartados.

No Livro dos Mortos há uma passagem que menciona as virtudes de não praticar um ato homossexual. Apesar do comportamento homoafetivo ser tolerado, como dizem os livros sobre o assunto, existem textos de sabedoria e listas de proibições que condenavam a prática homossexual (vide algumas referências abaixo).

Já a passagem nº 32 do Papiro Prisse, que atualmente se encontra na Biblioteca Nacional da França, é uma das escritas da época dos egípcios mais explicitas e que especifica a homossexualidade e os prazeres das relações com pessoas do mesmo sexo;  e vejam só o que ele diz:

“Não copules com um amigo, principalmente se ele pensa que o contrário não lhe agrada e somente isso pode satisfazer a sua paixão. Não passes a noite fazendo com ele, o que é contrário a fim de satisfazer os seus anseios”.

Enfim, se o contato natural de troca afetiva era tolerado e até mesmo possuía status a ponto de serem pintados/ registrados, nota-se que a troca de natureza mais sexual e especificamente o coito homossexual não era aceito;  o que fica é que se depender dos egípcios e dos achados até o momento, o contato entre homens era visto com olhos diferenciados, caso ele fosse afetivo ou sexual. Do ponto do ponto de vista fenomenológico corrobora a ideia de que a atração entre pessoas do mesmo sexo existe desde a aurora da humanidade, o caso é o que fazer com essa atração, e isso parece ter sido bem dosado e equilibrado para a época.

 

Leia Mais:

EL-QHAMID & TOLEDANO, Joseph. (2007) Erotismo e sexualidade no antigo Egito. Barcelona: Editora Folio.

MANNICHE, Lise. (1990) A vida sexual no antigo Egito. Rio de Janeiro: Editora Imago, 1990.

MELLA, Federico A. Arborio. (1998) O Egito dos faraós: história, civilização, cultura. São Paulo: Hemus.

REEDER, Greg. (2000) Same-sex desire, conjugal constructs, and the tomb of Niankhkhnum and Khnumhotep. World Archaeology, v. 32, n. 2, p. 193-208.  (Disponível em JSTOR:  http://www.jstor.org/discover/10.2307/827865?sid=21106281371883&uid=4&uid=2

 Centro de Pesquisas da Antiguidade (2013): https://cpantiguidade.wordpress.com/2013/11/17/referencias-a-homossexualidade-no-egito-antigo-2/

Noticias heterogoy (2015);

Em uma pesquisa no Google também encontra-se muito material interessante